Friday, May 06, 2011

Uma ideia que nasceu a bordo



Pilar del Río gosta de revisitar o momento em que decidiu abrir a casa e a biblioteca de Lanzarote aos visitantes: "Aconteceu durante uma viagem ao Brasil em Setembro último. Saí de Lisboa, na TAP, entrei no avião, sentei-me no meu lugar, ia sozinha, não falei com ninguém, a viagem começou à hora estabelecida, à meia-noite. Por volta das duas da madrugada, o avião já estava às escuras. Notei que alguém se aproximava de mim. Era a supervisora, que me disse que estávamos a sobrevoar Lanzarote, se queria ver as luzes da ilha. Tenho que dizer que foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. O comandante, os pilotos, viram Lanzarote, alguém me deve ter reconhecido e uniram o que para eles era lógico: Saramago, Lanzarote, a sua mulher. Isto aconteceu num avião português, o aviso foi-me dado em português e, no entanto, essa tripulação soube que Saramago também é Lanzarote. E, com a clareza deles, também eu vi, claramente vi, que ninguém separará Lanzarote e Saramago. Nada, ninguém, nenhuma força poderá separar uma relação tão enraizada, que a mais de 10.000 metros de altitude e noite cerrada, uma tripulação portuguesa viu as raízes, e eu via-as também. E nesse momento soube, com o saber de Saramago, que era lúcido e profundo, que não desmontaria a casa, construída de livros, que começou a habitar quando tinha mais de 70 anos. Nem a casa, nem a biblioteca que veio depois, esta habitação que alberta as pessoas que cada livro contém, e que albergará os que por aqui passem, e sempre Saramago."

Revista Up da TAP Portugal, Maio 2011